Sangritas e os primeiros traços do Girassol de Flôfri
Por Monike Santos
Artigo escrito pela atriz Monike Santos sobre o espetáculo Flores de Frida projeto de Território de Criação Comunitária, contemplado pelo Edital de Manutenção Continuada de Grupos e Companhias de Arte nº 02/2026, da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB), por meio da Secretaria de Estado da Cultura de Goiás (Secult Goiás).
Sangrita é uma das receitas encontradas no livro secreto de Frida Kahlo, ela conta que a conseguiu em uma viagem com Muray, que a ensinou que Tequila deve ser acompanhada de uma bebida agridoce, embora não houvesse deixado o hábito de gostar de tequila pura, e em suas palavras era como gostava também dos homens, “ sem nada”, achava a receita útil para impressionar as visitas gringas de Diego.
• 2 malaguetas ancho
• 2 colheres de sopa de cebola picada
• 2 chávenas de sumo de laranja
• 1 /2 chávena de sumo de lima
• sal
Colocam-se as malaguetas ancho assadas, sem as membranas e sem as sementes, a ferver durante 2 minutos. Depois deixam-se repousar durante 10 minutos. Mistura-se a cebola, o sumo de laranja e a meia chávena de sumo de lima e coloca-se, a par das malaguetas, no liquidificador ou num almofariz. Tritura-se tudo muito bem e junta-se sal. Pode adicionar-se mais sumo de laranja, de lima ou de tomate. ( HAGHENBECK 2019, pg 23)
A Sangrita é vermelha e picante, Frida usa a palavra Idílio para se referir a sua comparação de a sangrita ser a mulher, e o homem ser a tequila, juntos são essa querência do perfeito, do entrelaçamento entre o sonho e a utopia. Mas também, tem em sua fala, o dissabor do desejo não correspondido, onde ela diz; “gostaria muito de ser assim com meu amado Dieguito”, mas que ele poderia ser seu amigo, seu filho, seu amante, seu companheiro; nunca seu marido. Afirmando amargamente que a seguir à colisão que tivera com o elétrico, ele foi o seu pior acidente. ( HAGHENBECK 2019, pg 23)
O meu chão para iniciar a criação do personagem Girassol de Frida kahlo, o que acredito ser uma de suas facetas imaginativas e personalidades liberatórias, é pensar nessa mulher que se recusou a aprender a cozinhar, mas aprendeu a costurar, cerzir e a bordar, que era apaixonada pela vida, e dependia de um corpo que não a acompanhava em suas aventuras.
Não acredito nessa coisa da mimese de Aristóteles, em que a arte imita a vida, venho de um lugar artístico, em que a arte é a vida acontecendo e tecendo suas misteriosas teias e sendo deliciosamente experimentada. Por exemplo no dia 04 de setembro escrevi em meu diário de bordo;
…O calor não me deixou nem fisicamente, muito menos espiritualmente, senti que tudo virou uma ebulição, que de certo modo foi para cena. Plantei plantas em vasos novos, assim como afundei minhas falanges plantares no linóleo, recebi com alegria uma nova integrante, e troquei corporalmente, suei um medo específico, enquanto dormia pouco, transpirei inseguranças e construí um caminho, mas um para me regular, entendo sempre que todas essas ebulições internas e externas, não se separa dentro de mim, para que meu Girassol saia ou surja fragmentado de tudo isso, como se fosse algo novo, por que nunca vai ser, sempre será eu fervendo tudo isso em um caldeirão quente, e as vezes evaporando ou simplesmente queimando a língua de alguém com esse líquido quente…( ACERVO PESSOAL 2026)
Nego bispo fala em seu livro “ A terra dá, a terra quer”; que a arte é a conversa das almas, a arte alimenta a vida. A arte é conversa das almas porque vai do indivíduo para o comunitarismo, pois ela é compartilhada. Como Licencianda também sou assim do ensinar, do compartilhar, do multiplicar conhecimento, não creio no conhecimento que é usado para humilhar ou diminuir outrem, todos somos capazes e cheios de conhecimento, quem hierarquiza os saberes, não sabe o cerne do aprendizado, quanto mais se busca conhecimento, mais ainda se encontra o que buscar.
É nítido perceber que algumas falas só ganham força quando é integrado, uma presença corpórea, ou movimento físico, existe dramaturgia no encontro com o outro, com seu corpo, com suas falas. Percebo que assim como a Sangrita é impossível criar esse personagem que é uma persona de Frida, mas também minha, sem a mistura, sem o calor, sem o aquecimento natural das mulheres latinas, não digo aquecimento figurativo agora, digo sobre esse calor que nos esquenta a orelha quando sorrimos, desse avermelhamento que nos sobe as bochechas quando seduzimos, desse suor que nos molha ao dançarmos e da quentura dos cabelos que são livres quando estamos felizes.
Uma vez, disse: «Aquele que queira ser águia que voe; aquele que queira ser minhoca que se arraste, mas que não grite quando o pisarem.» Não mo disse a mim. Nem sei a quem o disse, mas que o disse, disse.
É preciso servir-lhe tequila, sangrita e algo para comer, pois decerto vem cansado do longo caminho. Eu também estaria farta de andar para aí a cavalgar dessa maneira. ( HAGHENBECK 2019, pg 21)
O Girassol é uma planta que se movimenta, olha para o sol, persegue a luz, não existe nada que se mova que não gere energia, é a primeira lei da termodinâmica, gosto de pensar que o Girassol é a certeza da esperança da Frida. Na citação acima ela afirma que é necessário servir ao mensageiro da morte, Sangrita, e algo para comer, cavalgar cercado de morte, cercado do fim, levaria a um estado de tédio, cansaço, é tudo de que uma atriz não precisa em cena. Olhe no olho da morte, mas não se identifique, o que atrai as pessoas é a vida, e ver pessoas vivas em cena.
Referências
HAGHENBECK, F. G. O segredo de Frida Kahlo. Tradução de Luis Reyes Gil. São Paulo: Planeta, 2019.
SANTOS, Antônio Bispo dos. A terra dá, a terra quer. São Paulo: Ubu Editora / Piseagrama, 2023.

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